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Meu Encontro Com Lobato Paraense Imprimir E-mail

(Editorial de Maio de 2.009)

Não é tarefa das mais fáceis diante do pouco tempo que dispõe um encontro com o Profo. Lobato Paraense, mas eu tive uma senha que costuma abrir portas aonde chego, especialmente nas casas da Ciência e do Saber deste país, que é o Profo José Geraldo Vergetti de Siqueira; falei em seu nome e as portas do escritório do Profo Lobato se abriram.

Estive com o Dr. Lobato Paraense (o atual papa da malacologia mundial) no dia 03 de setembro de 2.008, à tarde, no período de 14,30 às 17 horas, onde discutimos vários assuntos com relação à ciência de um modo geral. Contou-me sobre o trabalho publicado em 1.943 "Aspectos parasitários observados no local inoculado com esporozoítos do Plasmodium gallinaceum" apresentado num Congresso Brasileiro e publicado nas Memórias do Instituto Oswaldo Cruz. Nesse trabalho ele afirmava que o mosquito (Aedes aegypti) quando inoculava esporozoítos em pintos normais, antes de atingir as hemácias ele penetrava numa célula subcutânea e ou mesmo numa célula mesenquimal onde se replicava, produzindo uma segunda multiplicação nos eritrócitos, ao contrário do que Schaudinn afirmara em 1.903, que o mosquito inoculava o esporozoíto e este penetrava diretamente nos glóbulos vermelhos.

Henrique Aragão (diretor do Instituto Oswaldo Cruz naquela época) ao ver a apresentação de Lobato Paraense naquele Congresso, pediu para que o mesmo verificasse o trabalho de Schaudinn (alemão) afirmando inclusive que o mesmo apresentava algumas fotografias. Artur Neiva foi uma segunda voz que se levantou contra a publicação de Lobato, enfatizando o que Aragão tinha colocado. Lobato vai para a réplica e disse que o referido trabalho (de Schaudinn) tinham alguns desenhos feito a punho pelo próprio Schaudinn. Continuando sua exposição Lobato afirmou que Schaudinn após 1.903 (esteve pesquisando malária na Itália), quando da publicação do referido trabalho sobre malária não mais voltou a escrever sobre o assunto, pois estava se dedicando ao estudo do agente etiológico da sífilis, o Treponema pallidum, convocado pelo governo alemão para dar uma resposta definitiva sobre o referido assunto; pois todos o anos saiam publicações diferentes sobre os mais variados microorganismos, supostos agentes sifilíticos e não se chegava a conclusão alguma.

Ainda na Itália, Schaudinn conseguiu isolar o Treponema pallidum, em uma mulher que ele tinha examinado e depois desse episódio participou de um Congresso em Lisboa e na volta para a Alemanha, faleceu em 1.904.

Assim o Profo. Lobato Paraense "matou a cobra e mostrou o pau e a cobra morta", dando assim uma grande contribuição para a Ciência. Assim é Lobato Paraense, um pesquisador de "quatro costados" um incansável pesquisador nato em nível dos maiores que passaram por este país, como Emílio Ribas, Adolpho Lutz, Carlos Chagas, Samuel Pessoa, Vital Brasil, Pirajá da Silva, Oswaldo Cruz e tantos outros "Monstros Sagrados da Ciência Brasileira"; digno das nossas "Eternas Homenagens", sem sombra de dúvida.

Pois é, Lobato Parense é tudo isso que acabamos de colocar, mas continua na sua "Grande Caminhada" da vida, chegando às 9 horas da manhã em seu Laboratório (que o denominou de Adolpho Lutz) indo almoçar ao meio dia e voltando a trabalhar na parte da tarde, de 15 às 18 horas, cumprindo assim a sua grande tarefa e fiel aos seus princípios de pesquisador de caramujos do gênero Biompalaria (hospedeiros intermediários de cercárias do Schistosoma mansoni), deixando para novos pesquisadores outras tarefas (pesquisas sobre outros assuntos de interesse da saúde pública).

Lobato Paraense está no momento com 92 anos de idade, mora na FIOCRZ e costuma diariamente dar dois expedientes na citado centro de Pesquisa, um dos orgulhos nacionais, sendo um dos nossos exemplos de decência e dignidade pelo que representa para a Ciência Brasileira, mas acima de tudo pelo seu caráter ilibado, pois num país de tantos contrastes como o nosso, onde a dignidade muitas vezes, não é levada em consideração, onde o "faz de conta" parece ser a "bíblia" de muitos, ele continua ali, sóbrio e com uma memória ainda invejável (de tanto exercitá-la, com toda certeza) e provando que é possível trabalhar com dignidade no país de Macunaíma.

Lobato Paraense parece ser uma ilha isolada dentro da própria FIOCRUZ, pois ele faz ciência pela ciência e visando acima de tudo a Comunidade, um exemplo a ser seguido. É preciso que outras pessoas que pensam e agem de forma semelhante, mas que continuam ilhadas, se unam por que somos tão poucos diante desse mar tenebroso da incompetência do descaso e da corrupção.

Meu encontro com Lobato Paraense foi uma coisa extraordinária onde tecemos assuntos de aspectos variados, desde Oswaldo Cruz até o livro recente sobre Esquistossomose lançado pela FIOCRUZ, com dois capítulos escritos por ele (Lobato). O Professor Lobato é um nosso marco, uma referencia nacional e internacional, um homem que fez a sua própria história e que continua a ajudar a humanidade a construir a sua história.

Por ser uma pessoa decente e rara, num oceano de tantas e sem valor, de comportamento exemplar num mundo em que isso parece ser coisa do passado, pelo seu exemplo de competência e dedicação num conjunto onde os incompetentes e sem compromissos é que parecem ter valor, eu tiro o meu chapéu para este cientista sério que ainda permanece entre nós, graças a Deus.

Profo Lobato Paraense nos parece uma dádiva divina e nós agradecemos ao nosso eterno Deus de bondade por ele nos ter presenteado com esta rara jóia...

Maceió, Setembro de 2.008.

Profo Mário Jorge Martins.

Médico e Professor Adjunto de Saúde Coletiva da Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) – Brasil.

 

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