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Um País Grande Demais Para Ser Vencido Por um Vulnerável Mosquito Imprimir E-mail

(Editorial de Julho de 2.009)

Atualmente, chama a atenção no país o aumento do número de casos de dengue, transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. Esse mosquito está espalhado por praticamente todo o país e por isso, traz grandes prejuízos à saúde pública e à produtividade, causando mais desequilíbrios na já precária situação socioeconômica brasileira.

O Brasil que teve uma grande experiência na erradicação da febre amarela no inicio do século passado, através das memoráveis campanhas na erradicação do Aedes aegypti, quando ocorreram epidemias urbanas desta enfermidade, com trabalhos efetivos através de medidas preventivas no saneamento do ambiente. Esses efeitos tiveram êxitos extraordinários com Oswaldo Cruz, na cidade do Rio de Janeiro e Emílio Ribas, em São Paulo.

O programa de erradicação de A. aegypti realizado nas Américas obteve um êxito sem precedentes nas décadas de 1.950 e 1.960, porém, devido a inúmeras causas, inclusive a falta de solidariedade de alguns países da região, acabou se desintegrando, o que resultou uma enorme dispersão do vetor no hemisfério.

O Brasil foi reinfestado pelo Aedes aegypti em 1.976 e naquele momento, o grande risco percebido com esse acontecimento era a possibilidade de reurbanização da febre amarela, erradicada em 1.942, com a última ocorrida em Sena Madureira, no Acre. O dengue era apenas uma enfermidade exótica e benigna. Embora se saiba que desde 1.846 havia registros de sua ocorrência no país, pois naquela época irromperam numerosas epidemias de febre amarela pelos quatro cantos do país (sendo o Aedes aegypti o vetor comum para os dois flavivírus) e além disso, o dengue grave a febre hemorrágica, estava geograficamente distante. A importância do dengue parece haver sido então subestimada e acreditou-se, então, ser perfeitamente possível à erradicação do Aedes aegypti, tal como se havia feito no passado. Mas as condições eram outras, pois a população agora estava concentrada no meio urbano, e as chances de difusão do vetor eram muito maiores. O Aedes aegypti foi detectado no porto de Santos, em 1.980. Em 1.985 o vetor já se encontrava presente em 2,1% dos municípios de São Paulo, e em 1.991, 56,1% estavam infestados.

O primeiro caso de dengue foi comprovado laboratorialmente em 1.982, em Boa Vista, capital do então território de Roraima, com 12 mil vítimas numa população de 60.000 habitantes. A segunda epidemia surgiu em 1.986 e 1.987 com epidemias massivas no Rio de Janeiro e em alguns outros estados da federação. A segunda epidemia surgiu em 1.986, no Estado do Rio de Janeiro causada pelo sorotipo DEN-1 e em 1986/1987 rapidamente se espalhou causando epidemias em mais três unidades federativas (Pernambuco, alagoas e Ceará) e a transmissão localizada em mais três estados (São Paulo, Minas Gerais e Bahia).

Nessa ocasião, as ações de combate ao Aedes Aegypti foram intensificadas, porém a circulação viral não foi interrompida. As epidemias tiveram caráter explosivos; com a diminuição paulatina de susceptíveis ao sorotipo envolvido houve redução marcante do número de casos notificados nas localidades com transmissão ativa nos anos de 1987/1988. Todavia, as medidas adotadas para combater ao vetor foram insuficientes e sem a devida continuidade e, com o passar do tempo, observou-se expansão do número de municípios do Brasil com transmissão do vírus do dengue.

Em 1.994, a doença reaparece com toda a força e no ano 1.996 foram 170 mil casos de dengue clássico. Neste mesmo ano, focos do mosquito se expandiram em 20 Estados da federação. Em 1.996, todos os Estados brasileiros, com exceção do Amapá, tiveram municípios infestados pelo Aedes aegypti.

Nesse mesmo ano (1.996), o governo começou a elaborar um plano diretor para a erradicação do mosquito e prometeu R$ 4,5 bilhões para um programa de três anos. Para o ano de 1.997, deveriam ser aplicados R$ 429 milhões, menos de um décimo do prometido. Entre 1.995 e 1.996, os recursos para saúde e saneamento aumentaram apenas 0,7%.

De acordo com a atual situação epidemiológica, verifica-se que o Brasil tem a maior concentração de indivíduos susceptíveis no mundo, sob risco de epidemias de dengue hemorrágico. Apesar disso, até o momento tem-se registrado relativamente poucos casos desta forma da doença. A expansão e a persistência de circulação dos sorotipos 1, 2 e 3, aliadas à possibilidade de introdução do sorotipo 4, impõe que se coloque este problema na agenda de planejamento dos dirigentes da área de saúde coletiva e de atenção individual.

Houve no Brasil um processo sistemático de desmantelamento e desmoralização dessas instituições, em particular da Fundação Nacional de Saúde (que sucedeu sem êxito algum a SUCAM e FSESP), que começou no governo Collor e que, infelizmente, continuou nos governos que o sucederam.

Ressalte-se de que as autoridades não podem se eximir da responsabilidade pelos fluxos epidêmicos anuais de dengue, por exemplo, que tornam os casos da doença cada vez mais graves e até mortais. Na verdade, a responsabilidade do poder público torna-se cada vez maior.

À vergonha da miséria, sempre e cada vez mais largada à própria sorte, soma-se ademais a inépcia e a tergiversação, para não falar de mentiras, quando se trata de pelo menos minimizar o problema. A dengue é apenas um aspecto dessa irresponsabilidade, pois até agora, as autoridades dos três níveis de governo (federais, estaduais e municipais) sabem apenas se acusar pelo descaso, pela paralisação de programas, transferindo a outrem responsabilidades pelo descalabro sanitário.

A recente epidemia que assola o Rio de Janeiro é mais um exemplo desse descalabro, pois a o nível municipal de saúde acusa o nível federal, pois a Fundação Nacional de Saúde não repassou a verba prometida, cerca de 5 milhões de reais, para combater o mosquito transmissor. Eles ficam acusando uns aos outros (aproveitando-se do ano eleitoral para faturar politicamente e o povo que se dane) e nada fazem para pelo menos amainar o problema; significando que enquanto eles se acusam o mosquito continua livre e solto proliferando nos interior das residências, pois cerca de 80% dos criadouros localizados dentro dos domicílios, pela falta de responsabilidade e cidadania de uma população que apenas quer reivindicar direitos e deveres nem falar, com a cidadania perdida no tempo e no espaço.

E assim, enquanto eles brigam o Aedes aegypti deita e rola estabelecendo-se cada vez mais e disseminando-se por todos os cantos do país, um mosquito altamente vulnerável, mas que infelizmente, veio de "mala e cuia" para ficar nesse grandalhão desajeitado chamado Brasil.

Maceió, Julho de 2.009.Profo

Mário Jorge Martins.

Médico e Professor Adjunto de Saúde Coletiva da Universidade de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL) – Brasil.

 

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