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Projeto de Controle da Esquistossomose em Alagoas Imprimir E-mail
01 – Introdução – a esquistossomose mansônica constitui um dos mais importantes e complexos problemas de Saúde Pública para o Brasil, afetando milhões de brasileiros, especialmente os jovens em idade produtiva. Sua capacidade patogênica é potencializada quando existe associação com outras enfermidades, como hepatite viral, salmoneloses, verminoses e protozooses intestinais, cardiopatias (doença de Chagas, insuficiência cardíaca congestiva, etc.), calazar, pneumopatias (tuberculose pulmonar, asma, enfisemas, insuficiência respiratória, etc.), toxoplasmose, alcoolismo, linfomas, desnutrição crônica, entre outras.
Embora o MS estime que existam atualmente cerca de 2,5 milhões de pessoas portadores de S. mansoni, no entanto, outros estudos sugerem em torno de 6 a 7 milhões  de esquistossomóticos no país. Alguns autores apontam para mais de 12 milhões de brasileiros parasitados, principalmente nas regiões menos favorecidas, de difícil acesso, sobretudo dos meios de comunicação. Outros autores chegam a estimar que esta parasitose sempre se encontrou presente na vida, doença e morte de aproximadamente 10% da população brasileira (o que corresponderia hoje em torno de 19 milhões de indivíduos parasitados), especialmente os trabalhadores rurais assalariados temporários, parceiros, meeiros e favelados das periferias das cidades.
Alguns indivíduos parasitados, quando na fase crônica, não apresentam condições de trabalho para seu sustento e dos familiares, representando um elevado peso para a Nação. São indivíduos com hepatomegalia (fígado grande), fibrose hepática (fígado com travas de fibrose), esplenomegalia (baço grande), ascite (barriga d’água), varizes de esôfago (devido à hipertensão portal), vômitos sanguinolentos e, principalmente, com muita astenia ou fraqueza.
A esquistossomose é distribuída de forma desigual nos vários grupos sociais, com prevalência maior nos indivíduos subempregados e desempregados, com baixos níveis de escolaridade ou analfabetos, desnutridos e conseqüentemente com pouco rendimento em sua força de trabalho. Esse contexto social é bastante evidente quando se analisa a ocorrência e distribuição desta mazela em áreas rurais, atrasadas e com características semifeudais, como também mais recentemente, com a sua urbanização, pois o aumento da prevalência em áreas marginais ou periféricas urbanas possui o mesmo contexto referido, associados à falta de saneamento, moradia, saúde e lazer, retratando o triste espetáculo de decadência e pobreza urbana.
As repercussões sociais desta doença são agravadas porque as formas graves acometem principalmente os indivíduos pobres das zonas rurais, que necessitam desenvolver grande esforço físico para sua sobrevivência e não raramente a de seus dependentes.
Levando-se em conta que existem no Brasil aproximadamente 12 milhões de esquistossomóticos, pelo menos 10% deles – 1.200.000 casos – são doentes, dos quais cerca de 20% (240.000 casos) evoluem para formas graves (fatais); pode-se deduzir os custos para o País com medicamentos e hospitalização, mesmo que seja para uma parcela desses doentes (Freitas, 1.972). Talvez um dado ainda mais expressivo, não seja o que se gasta com a doença, mas o que se deixa de ganhar por sua causa.
Sendo uma doença que se agrava devido os desníveis sócio-econômicos e culturais, torna-se necessário à implantação de medidas que visem elevar os padrões econômicos, sociais e educacionais das populações residentes em zonas endêmicas. As mudanças ambientais preconizadas por vários autores e, inclusive pela OMS, embora necessárias para o controle não só desta endemia, mas de outras parasitoses em geral concordamos plenamente. Mas quando é abordado o controle de caramujos transmissores, visando cortar um dos elos da cadeia epidemiológica (de transmissão), não observamos como medida efetiva e definitiva, uma vez que é praticamente impossível este controle, pois a prática ao longo dessas cinco décadas tem comprovado isso, e além do mais, o caramujo não deve ser encarado como o grande vilão dessa história, visto que:
1 – A natureza, a grande mãe de todos, que com o seu “manto” protege a todos os seres viventes colocou o caramujo transmissor do S. mansoni para cumprir o seu papel dentro do COMPLEXO ECOLÓGICO, desempenhando todas as suas atividades dentro do ecossistema através do seu NICHO ECOLÓGICO, ou seja, alimentando-se especialmente de vegetais em decomposição nos remansos dos rios, riachos, córregos  e outras coleções hídricas; e servindo de alimento para outros seres da chamada cadeia ou teia alimentar.
2 – No processo evolutivo e seletivo parasitário o miracídio procurou vários hospedeiros para o seu desenvolvimento, encontrando no caramujo o seu habitat ideal para iniciar o processo reprodutivo e transformar-se em centenas de milhares de cercárias.
3 – O ser humano é quem defeca dentro ou nas margens dos cursos de água, levando em suas fezes os ovos de S. mansoni embrionados, ou seja, contendo em seu interior as larvas, denominadas miracídios.
4 – Além disso, os dirigentes municipais também contribuem para a manutenção da doença, uma vez que muitos municípios lançam “in natura” (sem tratamento) seus dejetos diretamente nos cursos d’ água, como acontece com vários municípios interioranos alagoanos do vale do Paraíba e do Mundaú, assim como também em outros estados brasileiros e demais países endêmicos.
5 – A penetração do miracídio representa um desastre na vida do caramujo, uma vez que ao sofrer todos os processos de metamorfose dentro dos órgãos deste hospedeiro intermediário, acaba produzindo estragos e assim afetar profundamente toda a economia, inclusive energética, do hospedeiro intermediário. Isto significa dizer que em todos os processos de transformação do miracídio dentro do referido molusco, a larva do S. mansoni para se transformar em cercária, utiliza-se de materiais (proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas, etc.) do caramujo, espoliando-o, podendo inclusive levá-lo à morte. Por isso, o encontro e a penetração do miracídio no molusco transmissor representam um acidente grave na vida deste, ou seja, ele também é uma vitima e não réu deste processo.
6 – Portanto, o caramujo não pode ser considerado o grande vilão da história da esquistossomose humana, pois é o próprio homem, que ao defecar nas margens ou dentro dos cursos de água, leva os ovos embrionados (com os miracídios) para se desenvolver dentro dos caramujos e transformarem-se em cercarias; assim como também é o homem que vai buscar as cercarias quando por qualquer razão, penetra nas águas.
02 – Esquistossomose no Brasil – trazido do continente africano através do tráfico de escravos, em nosso país, o S. mansoni fixou–se inicialmente na região nordestina, onde encontrou excelentes condições ecológicas, como o plantio da cana de açúcar nas margens dos rios, riachos, córregos e alagadiços, precárias condições sanitárias e, sobretudo, com a presença dos caramujos transmissores. No Brasil, a esquistossomose constitui um dos maiores e mais complexos problemas de saúde pública e o que se torna mais alarmante é que ela atinge principalmente as camadas sociais praticamente marginalizadas pelos serviços públicos.
A transferência da esquistossomose para o Brasil é o resultado de necessidade da força de trabalho para o processo produtivo, de início ligado à agricultura e posteriormente, à mineração. Com o desenvolvimento da cultura canavieira, devido à adaptabilidade das terras nordestinas à plantação de cana–de–açúcar e à escassa mão–de–obra dos nativos, foi necessária a importação de escravos africanos, cujo tráfico foi iniciado na primeira metade do século XVI, continuando durante os séculos XVII e XVIII, onde levas de escravos desembarcaram, inicialmente, nos portos de Olinda–Recife, em Pernambuco e Salvador, na Bahia. Pernambuco recebeu principalmente os negros Bantus (oriundos da África Equatorial e Tropical, Guiné, Congo e Angola), que foram distribuídos por Alagoas, Pernambuco e Paraíba, e a Bahia, os Sudaneses (originários da África Ocidental, Sudão e Norte da Guiné), com distribuição pelo Recôncavo Baiano, Minas Gerais e Sergipe. Calcula–se que durante o período da escravatura, chegaram ao Brasil entre 15 e 18 milhões de africanos.
Como se sabe, a esquistossomose mansônica existe no Brasil desde a primeira metade do século XVI (por volta de 1.531), quando de sua introdução através dos escravos africanos que vieram para trabalhar na lavoura canavieira. Entretanto, somente em 1.908 foi reconhecida pelo médico baiano Manoel Augusto Pirajá da Silva, quando descreveu os primeiros 20 casos da doença no país.
Os estudos desta endemia começaram a se expandir, com os trabalhos de Penna, apud Lutz (1.916), relatando o encontro de S. mansoni em marinheiros oriundos de Aracaju, Natal e Pernambuco. Lutz & Penna (1.918) realizaram um levantamento na região Nordeste e encontraram indivíduos parasitados em todos os estados pesquisados (Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia).  Em Alagoas, das 312 amostras examinadas, 71 delas continha ovos de S. mansoni, perfazendo um total de 22,7% (tabela 01).
Prosseguindo os levantamentos coproscópicos, Maciel (1.925), verificou a prevalência de 34,8% nos marinheiros oriundos de Alagoas, 37,2% nos de Sergipe, 23% nos da Bahia e 2,9% nos de Minas Gerais. Maciel, examinando as fezes de 287 indivíduos procedentes do Estado de Alagoas e engajados na Marinha Nacional, obteve 100 casos positivos para o referido helminto, perfazendo um total de 34,8% do parasitados, figurando o Estado como o primeiro lugar para esse parasito na estatística desse médico e pesquisador.
03 – Esquistossomose em Alagoas – o primeiro grande inquérito Nacional foi realizado por Pellon & Teixeira (1.950), através da Divisão de Organização Sanitária (D.O.S.), pois o Ministério da Saúde foi criado somente em 1.953, que determinou a prevalência da endemia em 11 estados da federação, através de exames coproscópicos em escolares na faixa etária de 7 a 14 anos, que foi completado em 1.953. Neste inquérito, no Estado de Alagoas de um total de 24.185 escolares existentes nas 23 localidades pesquisadas (em 20 delas o percentual era superior a 4%), foram examinados 17.668, ou seja, 73,20%. Destes foram registrados 3.490 casos com ovos de S. mansoni, estabelecendo um porcentual de 19,75%, o qual projetado sobre a população calculada para 1.950 estabelece em 226.808 o número de casos prováveis de esquistossomóticos existentes naquela época. Neste mesmo levantamento a maior positividade para este helminto foi o município de Viçosa com 71,88%. Neste mesmo inquérito, o Estado de Alagoas apresentou um percentual de 49,03 para ancilostomídeos e de 98,19% para helmintos em geral.
Em 1.976 foi criado o Programa Especial de Controle da Esquistossomose (PECE) e no Estado de Alagoas foi realizado um levantamento coproscópico em 65 municípios, sendo encontrado prevalências superiores a 4% em todos eles, com prevalência média foi de 31,20% em uma população de 1.468.543 indivíduos. Após três tratamentos em toda a área de transmissão, ocorreu uma diminuição significativa dos índices de infecção.
O PECE que durou até 1.979, não cumprindo com seus objetivos iniciais, inclusive sem uma avaliação devida de seus trabalhos em alguns estados, foi transformado em PCE e este a partir de 1.990 passou a ser dirigido pela Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).
04 – Esquistossomose em Maceió – Lima et al. (1.995) relataram que o primeiro inquérito em Maceió realizado pela SUCAM no período 1.977/79 encontrou uma prevalência de 16,93%, e em 1.983, após tratamento específico, o porcentual declinou para 7,34%. Dacal & Pedrosa (1.984) detectaram nas favelas do Dique Estrada e Vila Brejal 37,8% de portadores de ovos desse helminto. Nesta mesma área, Soares et al. (1.993) encontraram um índice de 34,4%. Mesmo com o Programa de Controle da Esquistossomose (PCE) da SUCAM, em 1.993, a mesma área apresentou prevalência de 29,7%. Esses dados por si só, já justificariam a implantação de um Programa de Controle da Esquistossomose no município de Maceió, o que ocorreu no ano de 1.993.
Com a implantação do Programa de Controle da Esquistossomose e outras helmintoses no município de Maceió – Alagoas – Brasil, Martins e al., trabalharam em toda a área que margeia a lagoa Mundaú, numa faixa compreendida do bairro Pontal da Barra ao Distrito de Rio Novo, no período de novembro de 1.993 a dezembro de 1.995; No primeiro inquérito, o trabalho foi realizado em 21 localidades de Maceió, reconhecidas antecipadamente pela antiga SUCAM, e posteriormente pela FUNASA, como áreas de transmissão para o S. mansoni. A coleta do material foi realizada em recipientes plásticos, descartáveis, e os exames foram realizados através do método Kato-Katz, sendo confeccionada uma lâmina para cada amostra de fezes e examinadas por técnicos do Programa, sob supervisão dos autores. Foram realizados 83.341 exames parasitológicos de fezes (E.P.F.) pelo método de Kato-Katz, sendo encontrados 11.340 (13,6%) para S. mansoni na população examinada. Os resultados foram os seguintes, conforme tabela abaixo:
 
HELMINTOS    S. mansoni    A. lumbricoides    T. trichiurus    Ancilostomideos    H. nana     E. vermicularis       
Exames Positivos    11.340    31.846    29.498    13.034    1.465    508       
Positividade (%)    13,6%    38,2%    35,4%    15,6%    1,8%    0,6%    

No segundo inquérito (1a avaliação, pós-tratamento) realizado no período de fevereiro a novembro/1.996, os autores trabalharam em 24 localidades reconhecidas como área de transmissão para o S. mansoni no município de Maceió. Foram realizados 72.474 exames parasitológicos de fezes (EPF), pelo método de Kato-Katz, com uma prevalência média de 8,7% para o referido helminto. Neste trabalho, apresentamos os resultados da 2a avaliação, objetivando um estudo comparativo com os resultados da 1a avaliação e do inquérito inicial.
No período de março a setembro/1.997, foi realizado o terceiro inquérito (2a avaliação, pós-tratamento), onde 61.628 exames foram confeccionados. No primeiro inquérito, examinamos uma lâmina para cada amostra de fezes; na 1a avaliação e neste trabalho, foram examinadas duas lâminas para cada amostra pelo método acima descrito. Uma revisão de aproximadamente 80% das lâminas pesquisadas (escolhidas aleatoriamente) foi executada por supervisores dos microscopistas. Uma segunda revisão foi realizada em cerca de 30% das lâminas que passaram pela primeira revisão, com a finalidade de melhorar a acurácia dos resultados. No quadro abaixo, relacionamos as localidades trabalhadas, que no 1o inquérito apresentaram prevalências superiores a 10% e comparamos com a 1a e 2a avaliações.
 
LOCALIDADES    1o INQUÉRITO (%)    1o AVALIAÇÃO (%)
(Pós-tratamento)    2o AVALIAÇÃO (%)
(Pós-tratamento)       
Trapiche da Barra    18,6    11,0    7,5       
P. Grossa II (V. dos Pobres)    12,5    10,9    7,0       
P. Grossa II (Vila Aratu)    31,5    14,7    8,2       
V. N. do Mangue (Vila Brejal)    21,5    12.9    10,3       
Bebedouro IV    17,2    12,8    11,7       
Chã de Jaqueira    11,8    5,1    4,2       
Vila Goiabeira    10,5    5,9    5,5       
Vila Pedreira (ABC)    13,2    9,2    7,6       
Povoado Rio Novo    23,0    8,5    7,7       
Povoado Pescaria    15,6    6,3    4,0       
Povoado Saúde    23,7    9,3    7,0       
TOTAL    18,7    8,7    7,5    

Embora considerando que no 1o inquérito foi examinada apenas uma lâmina por amostra de fezes, e na 1a e 2a avaliações, duas lâminas; observa-se uma redução significativa dos índices de infecção, como resultado do tratamento realizado, associado ao trabalho de educação sanitária e melhorias sanitárias realizada em algumas áreas. Além do tratamento com niclosamida (Bayluscid), alguns criadouros foram eliminados por aterramento pela população, sob a nossa orientação. Observe abaixo as atividades realizadas no período de Novembro/1.993 a Dezembro/1.997 pelo PCE-Maceió-Alagoas.
 
    Número    Lâminas examinadas       
Exames realizados    407.721    815.442       
Casos positivos para S. mansoni    35.891    ---       
Indivíduos tratados    32.830 (91,5%)    ---       
Coleções hídricas trabalhadas    10.810    ---       
Criadouros existentes    255    ---    

Com relação à esquistossomose mansônica no Estado de Alagoas, mesmo com o advento do PECE e o seu lançamento em 1.976, pelo então Ministro da Saúde Dr. Paulo de Almeida Machado, no município de União dos Palmares (onde outrora foi o centro geopolítico do “Quilombo dos Palmares”); este, bem como outros programas (atualmente PCE – Programa de Controle da Esquistossomose), nunca foram consistentes e na prática, os níveis de coberturas dos ciclos sempre foram irregulares. Portanto, mesmo no início do PECE, o aporte de recursos eram insuficientes para a cobertura da área endêmica de forma total (completa), suficiente e regular.
O relatório emitido pela Coordenação Regional de Alagoas da FUNASA, das operações de campo do ano de 1.996; dos 283.631 exames a realizar (ressalte-se que estes níveis não representam nem 50% do total de cobertura para o Estado), conseguiram executar apenas 150.018 amostras coproscópicas, ou seja, somente 50,1% do programado, ou seja, atingiu um índice de cobertura de apenas 25% do total do Estado.
Assim, as formas graves que foram reduzidas drasticamente após a implantação do PECE estão voltando, pois em 1.994 foi realizado um levantamento, sendo encontrados 191 casos de internamentos em 10 hospitais. A figura 01 revelou que 15,7% dos casos de internamentos estavam na faixa etária de até 19 anos, isto é uma situação preocupante, pois serve mesmo parcialmente (somente um ano) de indicador informando que todos esses indivíduos nasceram e desenvolveram formas graves em plena vigência do PCE. Se considerarmos que os indivíduos somente entram efetivamente em contato com os focos de infecções (coleções hídricas) a partir dos 5 anos de idade e, também um dos fatores, em que os indivíduos só formam os casos graves de 5 a 12 anos de reinfecções contínuas; teríamos mais 9,4% de indivíduos, os que se situam na faixa etária até 29 anos. Portanto, na verdade, teríamos 25,1% de indivíduos que desenvolveram formas graves mesmo após a implantação do PECE/PCE.

 
Figura 01 – Percentual de formas graves de indivíduos esquistossomóticos por faixas etárias em Alagoas – 1.994.
Fonte: Sistema AIH (hospitais da rede pública e privada).
Desse modo, ao longo de décadas, sucessivos Programas de Controle desta parasitose foram criados e realizados inúmeros tratamentos em massa, mas por falta de consistência, não houve um controle sistemático da endemia e por isso as formas hepatoesplênicas descompensadas estão voltando de forma explosiva em toda a região endêmica especialmente no município de União dos Palmares, onde os indivíduos apresentam rupturas de varizes de esôfago e ascite (barriga d’água).
Dessa maneira, ao longo de décadas, sucessivos Programas de Controle desta parasitose foram criados e realizados inúmeros tratamentos em massa, mas por falta de consistência, não houve um controle sistemático da endemia e por isso as formas hepatoesplênicas descompensadas estão voltando de forma explosiva em toda a região endêmica, onde os indivíduos apresentam rupturas de varizes de esôfago e ascite (barriga d’água).
05 – Esquistossomose, um Problema Municipal – muito embora as Secretarias Municipais de Saúde tenham assumido o controle das endemias com o advento da municipalização (a partir de 1.999 iniciou-se uma nova etapa com as ações da esquistossomose descentralizadas para os estados e municípios), esta atividade encontra-se ainda de forma precária, visto que o controle de algumas doenças endêmicas encontra-se em parte parado devido à falta de condições para que o trabalho seja desenvolvido, por falta de uma série de elementos, especialmente de vivência, competência e vontade políticas. Nos municípios onde estas atividades existem estão deixando muito a desejar, visto que os trabalhos estão ainda muito incipiente, insatisfatório e irregular.
Em vários municípios do Estado de Alagoas e Pernambuco o controle (quando existe) é precário e existem municípios alagoanos que há quase duas décadas não se faz (encontra-se parado) o controle para a referida endemia, o que é profundamente lamentável.
Comparando os dados da esquistossomose, entre os sistemas que registram a endemia, verifica-se uma diminuição dos óbitos e internações em 2.006, com breve aumento no ano seguinte. Nas notificações, principalmente em área indene, o processo é de tendência crescente no período de 2.005 a 2.007. Portanto, em áreas vulneráveis, originalmente indenes, com presença de hospedeiro intermediário, é necessário: diagnosticar, investigar os casos e fazer o controle de cura; cadastrar as coleções hídricas e realizar levantamento malacológico com periodicidade semestral; incluindo a identificação e monitoramento de fluxos migratórios e de projetos de desenvolvimento.
Sendo assim, cabe as Secretarias Municipais de Saúde assumirem de forma sistemática, criteriosa e definitiva, o controle desta importante endemia (que representa sem dúvida um dos seus mais importantes problemas de Saúde Pública) definitivamente, para que não continue ceifando a vida de seus munícipes.
6 – Como Será PECE-AL:
O Programa Especial de Controle da Esquistossomose de Alagoas (PECE-AL) pretende contemplar em sua filosofia uma série de realizações e benefícios para as comunidades carentes e marginalizadas pelo poder público, que abordaremos a seguir:
4.1 – Levantamentos coproscópicos em todos os indivíduos residentes na região endêmica do Estado – a coleta do material será realizada em recipientes plásticos, descartáveis, e os exames serão realizados através do método Kato-Katz, sendo confeccionada duas lâmina para cada amostra de fezes e examinadas por técnicos do Programas. Serão também realizados EPF utilizando-se o método de sedimentação espontânea (método de Lutz ou Hoffmann, Pons e Janer) examinadas por técnicos do Programa, sob supervisão dos autores.
4.2 – Tratamento de todos os indivíduos com resultados positivos para o S. mansoni (parasitados), demais helmintos, assim como dos protozoários.
4.3 – Pesquisa de criadouros de planorbídeos (Biomphalaria) e tratamento daqueles de importância epidemiológica (positivos para cercárias).
4.4 – Melhorias Sanitárias – através da construção de módulos sanitários (lavanderias, banheiros e privadas higiênicas).
4.5 – Educação Sanitária – será realizada dentro de um contexto geral de prevenção de doenças e não apenas visando o controle da esquistossomose, mas sim, educando a comunidade para tomar consciência que um cidadão bem informado encontra-se preparado para enfrentar as condições adversas do ambiente e dessa maneira, consegue ter uma vida melhor. As atividades de Educação Sanitária serão desenvolvidas a nível de professores do Ensino Fundamental e de Educação de Jovens e Adultos (EJA), assim como de casa-em-casa através de Educadores Sanitários devidamente capacitados.
4.6 – Construção de Estação de Tratamento de Esgotos (ETE) – por meio de convênios com Ministério da Saúde, FUNASA, ONGs e outros órgãos internacionais, construir as referidas estações nos municípios maiores e naqueles menores, dependendo das condições geográficas locais, construir lagoas de estabilização em locais apropriados.
4.7 – Monitoração de Coliformes Fecais – monitorar o índice de coliformes fecais dos rios do Estado, da nascente a foz, especialmente nos municípios alagoanos, começando por São José da Lage no Vale do Mundaú e Quebrangulo, no Vale do Paraíba, e demais bacias.
4.8 – Integração – com a Secretaria de Estado da Saúde, Secretaria de Estado da Educação, Secretarias Municipais de Saúde e de Educação dos municípios a serem trabalhados, orientando a implantação de obras de Saneamento Ambiental nas áreas endêmicas e capacitação de professores em Educação Sanitária, assim como, as doenças existentes e mais comuns na região de abrangência, dos trabalhos de Educadores Sanitários casa-em-casa, sistematicamente. Estas integração deve ser estendida também a todos os órgãos que cuidam do ambiente como um todo.
4.9 – Supervisão Sistemática – todo e qualquer trabalho executado deverá haver um processo de supervisão, visto que, esta diretriz é necessária como forma de avaliação e correção de algumas distorções, bem como adequações de acordo com a realidade local. Este tema será visto com mais detalhe adiante.
4.10 – Avaliação Sistemática dos Serviços Prestados – a avaliação é o termômetro do administrador para conduzir com segurança o trabalho programado. É ela que justifica a manutenção das atividades e dos métodos em andamento, impondo a modificação parcial ou total do esquema traçado. Esta atividade será vista com mais detalhe adiante.
Para alcançar sucesso permanente nas ações do programa, faz-se necessário à aplicação de grande aporte de recursos financeiros direcionados a educação e a saúde. O Acesso ao conhecimento possibilitando a apropriação do saber é primordial para manter o controle efetivo da doença, porém a falta de moradias condignas com saneamento básico, abastecimento regular de água, destino adequado do lixo e dejetos e melhor distribuição de renda, promovem o desequilíbrio entre população e o ambiente perpetuando a permanência do agravo.

Maceió, Julho de 2.011

Autor: Mário Jorge Martins.
Prof. Adjunto de Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Ciências da Saúde de Alagoas (UNCISAL).
Mestre em Parasitologia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Médico da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA).
 

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